Cinquenta

Eu sou tão transparente, quase translúcida.Não posso mentir. Chegar aos cinquenta foi uma “missão”.Teve dor, aventuras, cansaço, resistência e dor, e perdas e luta e perseverança e esperança, sempre ela, mas sabe? 2021 foi osso! Achei que não ia dar…Foram perdas tão viscerais! Como sobreviver a isso?!E eu sempre achei que não chegaria aos 50, então essa idade é emblemática demais.E daí que eu cheguei. E agora?Eu já não deveria ser uma pessoa estável, resolvida, que sabe quem é e o que quer?Gente, eu não sei nada! Nadica de nada!”Criança como você, o que você vai ser quando você crescer…”Renato sabia o que dizia.Eu ainda não tenho a menor ideia de onde essa estrada vai dar, e confesso, que o trajeto não tem sido assim tão excitante… Tenho muita saudade de quando eu era feliz e sabia.Tempos difíceis para os sonhadores!Hoje eu acordei e ainda tava doendo.Eu queria me animar, queria sentir esperança, mas ainda tava doendo.É que é duro ver nosso país assim, e tantos que eu amo passando perrengueE triste o vazio que ficou de amados meus que partiram precocemente.É horrendo ver sua vida despedaçada pela segunda vez por um novo golpe militar.E teve COVID, H3N2, e ainda tem um corpo que insiste em se degradar e doer 24 horas por dia.E daí hoje teve a casa da Anne Frank. E doeu um pouco mais e um pouco mais fundo. E para além da dor, teve a raiva, e o senso de justiça, e de responsabilidade, e a noção de que o nazismo não foi vencido por lágrimas, mas por luta, resistência e uma perseverança incansável. Passei o dia com esse sentimento. Não há que se desistir da luta. Não podemos sucumbir ao medo. No fim das contas, não é sobre nós, mas sobre quem virá. Reguei minhas dores de estimação, acenei para meus mortos e esperei o dia terminar. Ou começar…Pensei em me esconder, sumir, fazer voto de silêncio. Quando eu era adolescente, certa vez escrevi: “Vamos gritar até o amanhã nos ouvir”. E não é que ele ouviu?À meia noite Khadija me traz um presente mais que especial. Recortes, retalhos da minha vida, que ela soube costurar com a maestria de um anjo de luz, que é exatamente o que ela é. Ela e minha mãe futuro e ancestralidade, cozendo afetos juntas.Estou aqui ouvindo mensagens. A flor murchinha foi se esbaldando com tanta água de vida. Foi se hidratando com as palavras, se fortalecendo com palavras recorrentes como afeto, saudade, luz, acolhimento, amor, estrela, fada, resiliência, resistência e luta. E de repente descobri que posso não saber tudo, mas sei do que sou feita e por qual motivo eu vim.O que mais me impressionou na visita à casa da Anne Frank, não foi apenas sua história ou seus relatos.Todos já ouviram falar dessa menina luz, mas quantos de nós já ouvimos falar sobre os amigos não judeus que a mantiveram viva pelo tempo que puderam, guardaram seu diário, e trouxeram suas palavras ao mundo? Ela foi um lampejo de esperança que iluminou e ilumina até hoje, foi uma plantinha que se tornou árvore, flor e fruto, mas antes dela houve quem lançasse as sementes, regasse o solo, fizesse sombra e livrasse das lagartas. Qual o nome do semeador, do jardineiro?Eu achei que morreria, até os cinquenta, então de algum modo, nunca imaginei o que viria depois disso.É como se essa opção não existisse e confesso que agora que eu “cheguei lá”, não tenho muita ideia do que fazer depois. O que virá?Não faço ideia, até porque muito do que imaginei, foi desfeito por “golpes”, covid e falta de saúde. Aqui ou lá, “meus heróis morreram de overdose e meus inimigos estão no poder”. Mas quando eu vejo nos lábios dos que eu amo, palavras como saudade, luz, acolhimento, amor, estrela, fada, resiliência, resistência e luta, então eu entendo que é isso é parte do que vim pra ser/fazer. Daí penso nas famílias por trás da Anne Frank que deram a ela as condições necessárias para que cumprisse sua missão (um deles, segundo ela, um dos mais gentis, era de saúde frágil e vivia com dores, um irmão meu?) e entendo, que eu sou a semeadora, a jardineira…e sou cercada de muitas Annes. Um tantão de jovens como ela, minorias como ela, oprimidos e violentados em sua inocência como ela. Anne disse em seu diário: “Apesar de tudo eu ainda creio na bondade humana.” Se uma menina de treze anos, tombada pelo nazismo, era capaz de crer na humanidade, quem sou eu para não crer? De repente compreendo o tamanho da missão que me foi dada! Quão grande é o privilégio de vir ao mundo servir aos propósitos da luz. De ajudar a estabelecer entre nós, o Reino daquele que tudo é. E entender que não vim pra protagonizar nada, mas para ajudar a encontrar, proteger e cuidar e dos verdadeiros protagonistas. Então as palavras de Pagu me fazem um sentido enorme: “Nada mais sou que um canal”.
Olho então para os olhos iluminados da Khadija, sinto a grandeza do fogo que há em seu coração tão sábio e generoso, e agradeço pela vida dela, e por ter sido eleita sua cuidadora. Agradeço por tanto amor vivenciado, e me sinto grata por cada amor, irmão e amigo, longe ou perto. Gratidão por cada palavra de vida que recebi esta noite. Elas são curativo, lenimento, me refazem.Amo tanto, mas tanto vocês, que até dói.Sinto o tamanho da energia de amor que me envolve neste momento, me refazendo das cinzas e do cansaço. Faço as pazes com meu passado, e acolho até as minhas dores (afinal essa soma me fez quem eu sou). Lanço um beijo no vento para cada um que partiu. Celebro-me e canto-me, como aprendi com Walt Whitman.

Publicado por Fabi Estrela

Fabi, feminista de fibra, carrega o mundo no coração. Jornalista e bailarina e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. É especialista em Educomunicação, Direitos Humanos e Gênero. Thetahealer e estudiosa do sagrado feminino. Louca por bichos, make up e tattoos. Bem útil e fútil. Tem rodinhas nos pés e asas nas costas, por isso alguns a chamam de fada. Aquariana de riso farto, vive há anos entre Ásia e Europa, onde se dedica a empoderar jovens para mudanças sociais em seus grupos identitários.

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