Apsara

No fundo ela não acreditava que pudesse ser verdade. Imaginava que após tomar a poção mágica, o máximo que sentiria, seria paz de espírito ou algum tipo de “leseira”. Visões? Talvez uma toalha molhada se transformasse em um gato ou algo parecido, uma sombra no chão talvez se passasse por um elfo ou gnomo. Tomou o trem que mais lhe pareceu salgado do que amargo, como muitos diziam. Sentou e ali esperou, por nada…

Sentiu o parceiro da jornada tremendo ao seu lado. Segurou a mão dele e tremeu junto. Achou que podia ser um choro convulsivo, mas não ousou abrir os olhos de imediato. 

Uma lágrima escorreu de cada lado do rosto dele, a escuridão as tornava quase invisíveis, O toque dos dedos revelou que eram mornas e adocicadas. Sim, ela provou daquele sabor agridoce secretamente. Queria saber o que é que vazava daqueles olhos sempre melancólicos.

Ela desejava algo inusitado. Cura, revelações, epifanias… algo que conferisse algum sentido ao caos pelo qual estava passando, afinal, a resistência que lhe garantia a sobrevida, era a mesma que lhe roubava um pouco da vida em si.

Ela fechou os olhos e se resignou. Mais uma noite enfrentando quimeras e brigando com Deus.

Baixou a cabeça e se entregou aos cânticos. Se o chá não parecia fazer efeito, os cânticos a transportavam para um universo paralelo. Ecoavam como mantras e atingiam pontos cruciais no seu interior. Então, no meio do clamor do pajé, miríades e miríades de cores e microimagens surgiram diante dos seus olhos como um caleidoscópio de cenas. Primeiro foram os olhos! Olhos, olhos, muitos olhinhos! Olhos gregos, olhos turcos …então mudou. Surgiram figuras de pinturas de afrescos. Todas de uma arquitetura muito antiga. Detalhes de portas e janelas. Telhados e sancas. Tudo trabalhado em ouro. Shwe!

Esses desenhos se alternavam com imagens de pavões, flores de lotus e serpentes. Apsaras e deidades.

Ela se questionava ainda incrédula: Então estava mesmo acontecendo?!

Joias, e mais joias antigas. Ouro que não acabava mais, mas não se pareciam em nada com as joias de sua dourada e amada Myanmar. Eram ainda mais antigas. De um lugar desconhecido ou mitológico talvez? Voltavam os afrescos. As visões daquele lugar eram tão nítidas que se poderia tocar as tintas imaginárias com as pontas dos dedos reais.  O caleidoscópio era tão colorido, e suas imagens tão intensas… de repente muitos budas. Sidhartas e Gautamas. Budas hindus e budistas que se fundiam. Mais apsaras ! Uma pintura em dourado na parede, um rosto. Ela se viu! Quando se reconheceu, suas mãos se desmancharam em mudras. Seus braços tornaram-se serpentes dos céus.

Ela começou a dançar e sibilar. Fazia sons inusitados com a língua, enquanto sequências de mudras se transformavam nos seus dedos, em flores de lotus a desafiar o ódio do mundo, brotando insistentes no meio do lodo.

Ela não sabe por quanto tempo dançou. Nem sabe ao certo se dançou ou se foi sonho. Ela sequer sabe qual foi o momento exato em que a jovem do retrato tomou conta da cena, ao fazê-la se levantar e dançar.

O menino parecia um velho. Nem tanto pela barba esbranquiçada, mas pelo semblante cansado, de alguém que carregava nos últimos anos o peso do mundo sobre a suas costas. Os olhos dele eram súplices como o do rato ferido de Myanmar, pelo qual ela chorou mas não conseguir salvar.

Ela tocou o velho com uma súbita certeza de quem sabia o que estava fazendo. Não sabia!

Como haveria de saber?

A fada estava dessa vez bem perdida, mas havia ali uma curandeira, uma apsara, uma monja muito antiga, guiada pelas mãos de Tara, a Kuan Yin, e essa sim sabia muito bem a que veio.

Ele mirou aquela fada mulher de quase dois metros de altura, e não resistiu, não se debateu nem fugiu.

Ela buscava seus olhos fugidios e tristes. Tentava encontrar um fio de conexão ali deixado há muitas vidas. Ela então cercou-o com luz e energia. Suas mãos dançavam ao redor dele. Uma dança para a invocação da sua cura.

Ele tentava achar alguma racionalidade no que estava acontecendo, mas sabia que seria inútil tentar explicar os mistérios que habitam os mundos de encantamento.

Ela sorria e ria de como ele era tolo por tentar esconder dela suas fraturas e feridas mal cicatrizadas. 

Ele realmente achava que funcionaria essa tola tentativa de se esconder dela?

Ele se travestia em um velho para ela, mas ela insistia em ver o menino. Sabia que ele estava ali lutando pela vida. Ela foi invocada para resgatá-lo naquela mágica tarde em que ele encontrou a nascente e desde então brotou águas puras de sua fonte a fim de lavar-lhe as feridas.

A essa altura, a curandeira já estava ali ao lado da jovem apsara, ajudando o espírito da nascente a entrar dentro da mente resistente do velho/ menino. O coração, músculo bobo que é, já havia baixado a guarda, a mente então haveria de ser apenas questão de tempo. 

Ele não fez perguntas. Estava um pouco desnorteado. Pode ser um pouco intimidador se deparar tão inesperadamente com as três faces da deusa tríplice ali encarnadas em uma única mulher. 

Quem tomou conta dos trabalhos foi a curandeira. Sob o olhar terno da apsara, tomou para si o bravo espírito da serpente encarnada em corpo de mulher. Clamou pela força da nascente que ele tanto buscou e abriu o peito a sangue frio, sem instrumentos ou anestesia, e com muita autoridade arrancou do peito do velho um veneno mortal que o estava matando aos poucos.

Havia mais coisas, ervas daninhas, lixo, crenças limitantes e muitos sofismas. 

Sem nem pedir licença, ela entrou dentro da mente dele, e enquanto o distraía com danças e alentos, revirava as mãos dentro do peito dele. Arrancava com as unhas cada raiz de dor.

Naquela madrugada, a água da nascente amada, molhava as mãos da curandeira e os olhos da apsara. Elas estavam ali para salvá-lo de si próprio. E não o decepcionariam.  

O olhar da nascente o atravessava. O riso dela, enchia o mundo espiritual de luz. Ela estava finalmente acendendo aquele velho e abandonado farol.

Ela sibilava como uma serpente e soprava para longe daquele homem enorme todas as mentiras e dores que o mundo lhe tatuou no peito. Estalava os dedos enquanto dissipava toda a energia pesada retesada no menino. Gestos simples, mas de grande simbolismo no mundo espiritual. 

O menino deveria ser tríplice como ela, e isso a intragava. Ali estavam o menino e o velho. Onde estaria o homem?

Estava ali escondido, sob a alternada proteção do velho e do menino. 

Enquanto as mãos dela operavam nas profundezas de seu coração, algo saía dele e provocava deleite, uma satisfação indescritível que até a ideia de deleite soava insuficiente

Ela soprou, para longe boa parte do lixo emocional que estava atrelado a ele. Como fez isso? Nem ela sabe. Ela apenas mirava fundo nos olhos do velho, enquanto cutucava seu coração.  Ela detectou os sangramentos, e a fratura. Estancou a hemorragia e imobilizou o medo. Arrancou com firmeza e precisão de movimentos, ervas daninhas, sujeirinhas e mentirinhas.

Trabalho encerrado, a curandeira parte e a apsara dança. O bailar solitário, de movimentos de mãos em formas de mudras, na boca da noite, na entrada da mata. Juntos eles testemunham na fogueira, o nascimento de uma salamandra.

Ela cura e dança, por semelhança, humanidade e amor gratuito. Ela não planeja fazer isso, apenas deixa fluir o que brota de origem incerta. As andanças do velho deram o recado: atente aos sinais! Ela fica, onde tem uma nascente de rio, a nascente que também é parte dela.

Dentro do peito ainda se ouve o sopro, na trilha da alma que ela rasgou, remediou, suturou…curou? Certezas não existem, mas nessa noite algo morre naquela fogueira, algo fica para trás com o sopro da nascente, algo inominável germina naquele espírito. 

De tudo, que se aprendeu nesta noite, uma verdade é inegável. Era muito cedo para o velho, tarde demais para o menino, mas graças a nascente, bem a tempo, esta noite nascia o homem.


Publicado por Fabi Estrela

Fabi, feminista de fibra, carrega o mundo no coração. Jornalista e bailarina e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. É especialista em Educomunicação, Direitos Humanos e Gênero. Thetahealer e estudiosa do sagrado feminino. Louca por bichos, make up e tattoos. Bem útil e fútil. Tem rodinhas nos pés e asas nas costas, por isso alguns a chamam de fada. Aquariana de riso farto, vive há anos entre Ásia e Europa, onde se dedica a empoderar jovens para mudanças sociais em seus grupos identitários.

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