Ramadã

Nunca escondi de ninguém que tenho uma relação afetiva com o Islã.

Me perdoem os que conhecem a religião de ouvir falar, mas eu a conheci vivendo no maior país muçulmano do mundo. Me desculpem os que se pautam pela mídia branca, masculina, heterossexual e tão patriarcal quanto a religião que alegam ser machista.

Existe religião não machista? Ah sim! As pagãs.
Então agora que já elucidei esse ponto inicial, quero dizer como me sinto ao saber que no mundo há muçulmanos perseguidos e martirizados todos os dias por professarem sua fé.

Certamente você já leu sobre cristãos perseguidos, torturados e presos por seguirem a Cristo. No entanto te pergunto: Você sabia que há um número provavelmente igual, (provavelmente maior) de muçulmanos que são torturados, exilados e assassinados por professarem o Islã?

Lá vem vocês falar sobre terrorismo, islamismo, Al Qaeda e Estado Islâmico.

Se vamos falar de terrorismo, não nos esqueçamos de mencionar Israel, o Estado terrorista.

Acreditar que islamismo é o mesmo que Islã, é tão sensato quanto acreditar que a Inquisição era cristã.

O cristianismo nem de longe se parece com o amor abnegado e incondicional, nem com a busca pela paz perpetrada por Cristo (meu Alfa e meu Ômega). Assim como o islamismo por muitas vezes manchou a memória do profeta Maomé (que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele) e como os monges terroristas de Myanmar envergonham a trajetória e os ensinamentos de Buda (um grande irmão na senda do amor).

Hoje é Ramadã. Não sou muçulmana, mas decidi fazer jejum no dia de hoje.

Não sei se posso, não sei se é certo. Não sei se estou roubando um lugar de fala que não é meu. Sei que não me cabe falar em nome do povo muçulmano. Venho aqui falar como mulher cristã e do ponto de vista do que aprendi como seguidora de Jesus.
Deus é amor.


Esse amor me inunda e transborda, não porque eu seja em mim uma fonte de amor, mas porque Deus, esse sim, nos constrange de forma inequívoca a amar nossos semelhantes, e mais do que isso, nossos inimigos.

Nessa manhã santa, onde muçulmanos celebram o Ramadã, birmaneses o Thingyan e tailandeses o Songkran (celebrações de ano novo com forte significado espiritual). Eu despertei cheia de esperança crendo que o universo havia “brincado” com as datas, colocando o Ramadã e o ano novo birmanês juntos- Afinal após um sangrento golpe de Estado, e a descoberta de um famigerado inimigo comum (Tatmadaw) , o povo de Myanmar finalmente se encontra pronto para pedir perdão aos muçulmanos por todas as atrocidades cometidas contra eles, incluindo o genocídio da etnia Rohingya  em 2017.
Acordei cheia de esperança porque li uma postagem, que dizia que após serem enganados anos a fio pelos militares, que convenceram a população que as minorias étnicas eram uma ameaça violenta ao país, finalmente descobriram que tudo não passou de uma propaganda ostensiva objetivando dividir e enfraquecer o povo, e que a partir de agora estavam preparados para o arrependimento, o perdão, a restauração e o resgate da nação como uma só.


Um lastro de esperança me inundava, quando uma trágica noticia me entrecortou a respiração.

Um homem muçulmano, um Mawzin (uma espécie de professor e colaborador das atividades religiosas), foi enforcado dentro de uma mesquita em Tamwe Township, em Myanmar, em plana manhã de Ramadã. Seu corpo foi encontrado, vestido com roupas de mulher, batom e peruca. Suas mãos atadas às costas.

Seu crime? Chamar as pessoas para orarem e celebrarem seu dia santo.

Uma tristeza profunda me invadiu. Meu estômago está enjoado e eu me sinto tentada a perder a esperança na humanidade. Mas não!

A Bíblia dizia que no fim dos tempos, por causa da iniquidade o amor de muitos esfriaria.

Não o meu! Minha alma arde e queima de amor por meus irmãos muçulmanos, e como jornalista, preciso fazer uso do instrumento que tenho para te despertar para uma informação muito triste.

Neste exato momento em que você lê essas simples palavras, há irmãos muçulmanos sendo martirizados em muitas partes deste mundo e a mídia não fala uma única palavra a respeito.

Somos culpáveis por nosso silêncio, e guardamos sangue em nossas mãos, quando nossos lábios silenciam diante das inúmeras barbáries que testemunhamos e calamos.

Você sabia que na China há campos de concentração, onde milhares de muçulmanos são maltratados? Sabia que nas Filipinas o povo muçulmano é discriminado, abandonado e molestado? Sabia que centenas de milhares de muçulmanos em Myanmar foram mortos em um genocídio, onde bebês eram lançados nas fogueiras, como as bruxas durante a inquisição?  (letra minúscula de propósito).

Sabia que o maior campo de refugiados do mundo inteiro é de muçulmanos de Bangladesh que são exilados por sua fé? Aliás, você sabia que ao redor do mundo há diversas etnias muçulmanas que não são reconhecidas por país algum, vagando há centenas de anos sem pátria pelo mundo, simplesmente porque seus países de origem não reconhecem sua fé? Por que ninguém sabe nada sobre isso?

Muita gente se apropria da questão feminista em relação ao Islã, falando sobre os maus tratos com relação às mulheres (nós inclusive temos muita moral, afinal uma mulher agredida a cada quatro minutos, uma mulher morta a cada duas horas, e uma menina de até treze anos estuprada a cada quinze minutos, é uma estatística que nos confere muita moral para falar do patriarcado alheio, não?) mas ninguém fala das muçulmanas na França proibidas de usarem as piscinas públicas por não quererem usar trajes de banho ocidental. Quanto feminismo né?

Também ninguém se queixa do hábito das freiras, do véu das católicas tradicionais, dos turbantes das sacerdotisas de religião de matriz africana, mas todo mundo é “bonzinho” e tão preocupado com as mulheres muçulmanas. Bora lá abolir o hijab e ajudar as coitadinhas a serem livres. Aliás no ocidente, nem falam sobre abolir hijab, porque na cabeça das pessoas tudo é burka. O hijab não é apenas um símbolo religioso, mas muitas vezes de resistência cultural e até ideológica, como o batik javanês, a capulana africana e o barong tagalog filipino. É uma forma de mostrar orgulho de ser quem se é.

 Estamos tão preocupados em julgar a cultura de um povo e não percebemos que isso também é racismo. É preconceito, discriminação, é opressão de um povo contra outro.

E já que somos tão preocupados assim, o que estamos fazendo de fato para tornar a vida desses irmãos melhor? Me pergunto ainda, se fizessem com a França, EUA ou Suíça, o que fizeram e fazem com a Síria, a Palestina e o Afeganistão, será que o mundo silenciaria?

Neste Ramadã eu celebro a vida de todo ser humano capaz de lutar por paz e justiça social.

Celebro todo aquele que se enoja diante do preconceito e do ódio, que dobra seus joelhos em oração, ou que se levanta em luta, pela justiça social, pela equidade e pelo amor incondicional como meta (ou Metha, amor gentil em sânscrito). Celebro cada mártir dessa luta inglória por liberdade. Celebro porque apesar de tudo, de toda dor e maldade sobre essa terra, sei que há muito mais Graça e misericórdia.

Neste Ramadã, peço encarecidamente por cada um que luta incansavelmente para que o Reino de Deus, o Paraíso, o Céu ou o Nirvana não sejam letra morta em livros antigos, mas fogo vivo e verdadeiro em nossas vidas.

Ramadan Kareen.

“On ira tous au paradis mêm’ moi”

Publicado por Fabi Estrela

Fabi, feminista de fibra, carrega o mundo no coração. Jornalista e bailarina e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. É especialista em Educomunicação, Direitos Humanos e Gênero. Thetahealer e estudiosa do sagrado feminino. Louca por bichos, make up e tattoos. Bem útil e fútil. Tem rodinhas nos pés e asas nas costas, por isso alguns a chamam de fada. Aquariana de riso farto, vive há anos entre Ásia e Europa, onde se dedica a empoderar jovens para mudanças sociais em seus grupos identitários.

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