Rose

Embora a música diga que devemos estar atentos e fortes, quase sem perceber, nós acabamos focando nossa mente muito mais em sermos fortes. Sobre estar atentos, quase que instintivamente canalizamos essa preocupação em estar atento apenas ao que NOS representa perigo.

Eu nunca havia refletido que o estar atento poderia e deveria também dizer respeito a estar atento ao outro, à necessidade do outro, a angústia, o medo e às dores do outro.

Dois mil e dezoito foi um ano difícil. Meu Deus! Que difícil.

Quase toda minha energia estava canalizada em sobreviver no frio literal e figurativo da Suíça.

Sobrevivi. Fui forte, mas não fui atenta.

Dois mil e dezenove eu só cantava, ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Me reinventei, me reconstruí, mas não prestei atenção.

Dois mil e vinte chegou. Um ano que dispensa qualquer explanação. Eu consegui ser forte de novo, só que de novo me distraí.

Chega o natal e o ano novo.

A gente se renova de esperanças e o amor parece fluir mais fácil.

A gente busca quem ama para dizer uma vez mais que ama.

Em plena pandemia ainda mais.

Então fui lá, resgatar as conversas de natal, que frequentemente se transformam em uma retrospectiva do ano e trocas de mensagens carinhosas, repletas de muito amor.

Então uma notícia me devasta.

Você não está mais entre nós.

Partiu.

Precocemente, na minha opinião.

Não tomamos o café e você não tomou minha pequena nos teus braços.

Não cantei com você ao piano, nem aprendi violão com você.

Eu me distraí e agora me dei conta que te perdi.

Te perdi pra morte, pro tempo, pra distância, pra minha própria distração.

Parece que você era menos importante do que aparentava, afinal de tudo que restou do nosso entorno. Do abismo das dores e ausências que se levantaram contra nosso convívio, restou muito amor, e nunca nos deixamos.

Até 2018 quando me distraí, e desde então falei tão pouco com você que as coisas me foram escapando, e não soube nem estive do seu lado quando o câncer chegou. Não soube do tratamento que você não conseguiu. Não estava ciente da morte que te levou.

Lembro nitidamente da tua voz, do teu afeto e da tua luta para criar com dignidade e amor, um filho sozinha. Não posso esquecer que me acolheu como filha também.

Ninguém soube, mas mesmo depois que todos os vínculos ao redor se partiram, o nosso permaneceu.

Trocamos conversas, resgatamos animais e falamos com orgulho sobre as nossas crianças.

Você sempre insistiu em dizer que pra sempre eu seria sua menina, e aqui estou diante do universo, em lágrimas te dizendo que ainda quero ser sua menina, e que não importa quantas dimensões nos separem, nada separará meu amor de você.

Publicado por Fabi Estrela

Fabi, feminista de fibra, carrega o mundo no coração. Jornalista e bailarina e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. É especialista em Educomunicação, Direitos Humanos e Gênero. Thetahealer e estudiosa do sagrado feminino. Louca por bichos, make up e tattoos. Bem útil e fútil. Tem rodinhas nos pés e asas nas costas, por isso alguns a chamam de fada. Aquariana de riso farto, vive há anos entre Ásia e Europa, onde se dedica a empoderar jovens para mudanças sociais em seus grupos identitários.

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