Pode a doença ser cura?

“Pouco há de patológico nas doenças que mutilam o homem. É o espírito que adoece sem que ele perceba.” VALERIA DE ALMEIDA

Hoje em dia muito se espiritualiza sobre as doenças e a condição física humana.

Tudo é psicossomático, fruto de falta de perdão, de amor ao próximo ou “ausência de Deus no coração”.

Por certo muitos desses fatores podem desencadear ou agravar condições físicas sim. Também é claro que existem gatilhos emocionais e correlações entre as emoções e o corpo físico, mas há duas ervas daninhas que brotam e se espalham entre manifestações sinceras de espiritualidade e busca interior.

Uma é a que chamo de “ toxicidade positiva”, o que obviamente do ponto de vista semântico, não significa absolutamente nada, mas foi um apelido que eu adotei para nominar uma a bem intencionada “meritocracia quântica”, que embora muito maquiadinha, não difere em nada da meritocracia que já conhecemos.

Tudo depende da sua força de vontade, garra e fé.

Não existem nesse caso, soberania divina, genética, ciência, acaso e por incrível que pareça: lição !

A outra é o capacitismo, mas vamos falar sobre isso no próximo texto.

Sobre a toxicidade positiva, queria como doente crônica fazer um apelo:

Parem de nos culpar pelo que passamos! Já é suficiente difícil conviver com a dor, a fadiga e o preconceito, mas ainda ter que ouvir que a força pra mudar isso está dentro de nós, é algo que definitivamente não precisamos ouvir.

Ponderemos:

Quantas pessoas que não valem um tostão furado que você conhece, que não perdoam, não amam, não cuidam nem se importam e têm a saúde de ferro? E quantas outras super gente-boa, amorosas e gentis que existem por aí lutam contra lúpus, fibromialgia e artrite?

A recíproca também é verdadeira, então percebam que a conta simplesmente não fecha…

O sol nasce para bons e maus, o que fazemos com isso é que faz a diferença.

Existe uma piada entre nós crônicos, que diz que basta você repetir a palavra autoimune na frente do espelho por três vezes, que imediatamente aparece alguém perguntando se você já tentou yoga (aromaterapia, meditação, reiki, terapia, novena, constelações … etc etc etc)

E sim, acredite, já tentamos de tudo.

E veja bem, não estou dizendo que essas coisas não ajudam. Ao contrário, foi justamente buscando alívio para a minha angústia (e dos outros) que me tornei estudiosa holística e do sagrado feminino.

Reconheço todas essas ferramentas como instrumentos de alívio, cura e autoconhecimento. Faço uso de várias e elas ajudam muito na jornada. Só que você não manda ninguém com diabete fazer meditação pra baixar os níveis de glicose do sangue. Não manda o cardíaco fazer yoga pra desentupir artérias. A maneira como as pessoas lidam com as doenças e os pacientes autoimunes é extremamente ignorante e preconceituosa.

Não ajuda!

Não somos dignos de pena nem tampouco de desconfiança. Lutamos contra nosso próprio corpo enquanto outros lutam contra vírus, anomalias …

Confesso que por vezes solto um risinho sarcástico (escondida no banheiro, é claro) quando vejo algumas das pessoas que me diziam durante a fase aguda: -ah deve ser tão bom poder ficar o tempo todo sem sair de casa- entrando em parafuso por causa da quarentena…

Vontade de perguntar se ainda tá achando gostoso não poder sair para canto algum … (sei sei, coisa feia de uma pessoa espiritualizada dizer).

Aqui no país onde moro já se apressariam em dizer que para quem não teve empatia pelo próximo, o confinamento seria karma. E que “karmão” heim!?

Concluindo sobre a positividade tóxica, queria dizer que todo incentivo e afeto são bem vindos. Invasão e culpabilidade, não.

A explicação mirabolante de que eu tinha dor lombar porque era muito emotiva e gostava de carregar o mundo nas costas, vinda de um pastor ortopedista, atrasou em anos o diagnóstico de espondilite anquilosante. A avaliação de uma massoterapeuta sobre eu concentrar tensão nos ombros por ser muito ansiosa, mascarou uma mini-fratura óssea causada por inflamação aguda.

Minha dor simbólica, era um osso quebrado que calcificou torto e hoje me obriga tomar analgésicos potentes, cheios de efeito colateral que já não contralam a dor.

E antes que me confrontem, sim a dor simbólica existe, eu somatizo muitas delas, reflito e tento trabalhá-las, mas a ciência natural não precisa contrapor a ciência acadêmica, elas se complementam.

Yin e Yang. O Tao da ciência, eu ousaria dizer.

Pacientes autoimunes são rancorosos e perdoadores. Raivosos e amorosos. Ansiosos e pacientes.

São pacientes como outros quaisquer.

Acredito em milagres?

Absolutamente !

Em cocriação das bençãos ?

Definitivamente.

Só que eu também acredito que Deus é soberano, que o universo é sábio e que tudo está sob controle.

Ao invés de odiar a minha condição (e muitas vezes eu odeio sim), eu prefiro tentar descobrir o que posso aprender com ela.

A doença também pode ser cura.

A enfermidade pode ser uma excelente professora.

Só Deus sabe o quanto eu aprendo cada vez que não consigo andar (ou dançar, imagina o que é pra uma bailarina?) o quanto cresço quando compreendo a finitude e a limitação desse corpo temporário e aceito que nem mesmo isso, ou a dor ou o desespero (que às vezes bate) ou a raiva e a indignação temporária. Nada nada disso pode me separar do amor de Deus.

Eu aceito e acredito na possibilidade de cura, mas se ela não vier isso não diminui nem a mim nem a Ele. Minha vida não é menos espiritual, minha feminilidade não é menos sagrada.

Eu simplesmente confio no processo.

Publicado por Fabi Estrela

Fabi, feminista de fibra, carrega o mundo no coração. Jornalista e bailarina e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. É especialista em Educomunicação, Direitos Humanos e Gênero. Thetahealer e estudiosa do sagrado feminino. Louca por bichos, make up e tattoos. Bem útil e fútil. Tem rodinhas nos pés e asas nas costas, por isso alguns a chamam de fada. Aquariana de riso farto, vive há anos entre Ásia e Europa, onde se dedica a empoderar jovens para mudanças sociais em seus grupos identitários.

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