Saindo do meu armário: Cristã, feminista e fada

Eu sempre imaginei que fosse difícil sair do armário. Tentava me colocar no lugar dos meus amigos LGBTQIs e imaginar como deveria ser, passar por toda essa exposição e execração pública, simplesmente pela sua forma de amar.

Parece que as diversas formas de amor incomodam muito mais do que as inúmeras formas de ódio, verdade?

Desde o primeiro momento em que pisei em uma igreja e me apaixonei por Cristo, até o momento em que me vi confrontada com a maldade humana falando em nome de Deus, a minha vida encontrou uma luta a mais.

Eu não acho nem um pouco difícil seguir a Jesus, porque seguir a quem se ama é muito fácil, mas andar lado a lado com seus seguidores e comungar com suas vidas, por vezes machuca-me a calma e fere-me a alma.

Para seguir a Cristo, abandonei minhas fadas, meus amigos, meu partido, minha luta e, pasmem, minha luz. Fiz tudo porque acreditava sinceramente que esses eram pré-requisitos para ser aceita por Deus e ser digna de segui-lo. No fim , eu não estava fazendo a vontade de Deus para fazer parte do seu Reino, e sim fazendo a vontade de alguns de seus seguidores que se achavam reis e arautos do Seu Reino.

Hoje muitos me julgam desviada por que desisti de me massacrar para ser aceita (até porque, não adiantou nada e eu segui por vinte anos como o patinho feio da igreja), então decidi aceitar, já que sou o jeito é ser, e sou assim, essa mistura de dondoca e hippie, cristã, holística, às vezes chique e sempre bicho grilo.

Eu creio em fadas e no amor de todos os seres viventes.

Creio em Um Deus que ama mas tão, tão desmesuradamente que se fez nosso irmão para nos alcançar. Ele não se fez rei, juíz, nem promotor, se fez irmão.

Confesso que quanto mais ando por esse mundão, menos o fogo do inferno me assusta e mais tenho medo do fogo nas matas.

Creio que a justiça divina está reservada Vivemos em uma era de apostasia, e finalmente eu compreendi que a apóstata não sou eu. Não mesmo, nunca fui! Foram tantas relações abusivas e amizades-lixo que encontrei nessa caminhada que me admiro ainda estar de pé. Me fizeram ter vergonha de quem eu era e tudo que tinha de mais especial era considerado ruim.

Fiz de tudo para ser digna do reino, afinal no mundo tudo era perdição. Primeiro deixei o cabelo crescer, meninas deviam parecer meninas, mas então meu cabelo era muito sexy e eu cortei beeeeem curtinho. Troquei o guarda-roupa, joguei fora as minhas calcinhas, pequenas demais. Mudei o vocabulário e passei a usar sutiã de senhorinha, meu peito chamava a atenção, diziam. Troquei a cor das unhas e mudei os acessórios. Me fiz invisível e feia, abri mão de homens do mundo que me levariam a perdição, mas quem me estuprou não foi um jovem ativista enquanto eu tomava cerveja de minissaia, mas um jovem lider evangélico, futuro pastor e missionário.

Eu me perdi completamente. Virei uma caricatura. Confesso que ainda não me achei, mas depois de anos na corda bamba, acabei encontrando alguns irmãos pelo caminho, tão “perdidos”quanto eu. Com eles eu me senti de novo viva.

Ano passado em um evento de igrejas e LGBTQI, eu tive uma epifania espiritual. Acabando o evento, todos saíram para comer e eu fiquei ali sentada no escuro, chorando sozinha, sorvendo cada lágrima que escorria do meu rosto e pensando: Finalmente Deus me respondeu. Vi tantos relatos ali naquele evento.

Pessoas trans, intersexo, bis, lésbicas, sem-terra, ativistas, vivendo com hiv…todos contando suas histórias de dor e superação. Maus tratos e incompreensão, vazio e julgamento.Eu me via em cada uma daquelas histórias, não por ser lgbtqi, viver com hiv, usar drogas ou qualquer coisa parecida. Eu sempre fui bem careta até, mas eu também nunca me adequei, nunca coube na caixinha e talvez por isso tenha passado a vida cercada de bicho-grilos, viados e sapas, artistas e outsiders de todas as tribos. Como nunca coube na caixinha me ajeitei junto a eles do lado de fora dela.

Eu sentia tanto medo de ser como eu era e acabar sendo lançada no inferno e abandonada por Deus. Tinha tanto medo de ser mau exemplo e de induzir as pessoas ao erro e enviá-las ao inferno, como um dos meus pastores me acusou uma vez.

Nesse evento que menciono, eu vi a igreja repleta de anjos, eu vi louvor sincero na boca das travestis e dos sem-terra, eu vi que Deus também nunca coube na caixinha. Ele certamente não está confortável na companhia dos neo-fascitas, milicianos, homofóbicos, misóginos e racistas. Ali, entre debates, cânticos e bêncãos (incuindo as do monge budista e da mãe de santo) eu entendi que a caixinha é para os “crentes” e não para os cristãos, até porque, no fim das contas, crente, até o diabo é, não é o dito popular evangélico?

Eu fiquei ali transbordando amor e vontade de gritar e de ir lá ne frente dizer: Eu tmbém fui uma semente lançada no fogo, também fui maltratada e excluída, mas com vocês eu renasço e faço um pacto de vida. Tentei entabolar coisas bonitas e inteligente para dizer, mas ao invés disso, fui até a reverenda Alexya e disse: Eu sei tudo que você passou, eu passei tudo isso com você, com cada um de vocês. Não sou LGBTQI, mas preferi sair da igreja do que estar longe de vocês, e pra falar a verdade eu nem mesmo sei porque fiz isso. Podia pedir uma selfie ou autógrafo, mas tudo que consegui foi pedir uma abraço.

Ela me acolheu em seus braços de anjo e me disse algo que carregarei comigo por toda a eternidade:Você não sai da igreja, porque você é a Igreja. Obrigada por não desistir de nós, por ter ficado do nosso lado, por ter nos amado quando ninguém nos amava, por ter nos defendido quando ninguém nos defendia, por ter escolhido caminhar conosco quando a igreja nos tratava como escória, talvez você não saiba, mas foi o amor de pessoa como você, que nos salvou da morte em momentos de desespero e abandono. Obrigada por ter escolhido ficar do lado do amor, mesmo quando te crucificaram conosco por ter feito isso.

Eu chorei lágrimas de alívio, gratidão e até uma pontinha de orgulho, confesso.Eu não estava do lado errado afinal. Nunca havia estado.

Desde então tenho enfrentado meus próprios demônios em um processo de cura interior, (literal, não a modinha gospel pentecostal) autoaceitação e recuperação do amor próprio.Reconhecer que a igreja foi um ambiente tóxico e cruel foi o primeiro passo para me tratar. Também foi preciso me perdoar por terem deixado fazer tudo que fizeram comigo durante vinte anos. A boa notícia é que Deus não teve nada a ver com isso. No fim das contas eu não estava enganada. Meus inimigos de outrora mudaram de roupinha mas nunca deixaram de ser quem eram, é por isso que hoje eu já não tenho medo algum de nomear os verdadeiros demônios desse século:


Patriarcado, caia por terra.

Capitalismo, eu te repudio.

Neo-fascismo, eu te esconjuro.

Preconceito, eu te odeio.

E agora para que não fique dúvidas e para facilitar o meu trabalho e o seu (exclusão instantânea da vida pode ser um trem faciitador de malas sem alça bilaterais tabajara, hahaha) .

Me assumo Fada, feminista, pró – LGBTQI, estudante de sincronários e de sagrado feminino, thetahealer, e terapeuta holística .


Hoje deixo meu armário, de tentar me adequar ao que nunca fui, apesar de tentar muito. Já quis ser pastora, missionária e esposa submissa. Em tudo falhei, a caixinha me enlouquecia e me deixava feia, apagada e comum, mas também não quero mais abrir mão da minha espiritualidade, por isso deixo aqui minha profissão de fé, meu credo e meu libelo.

A partir de amanhã, fora do armário… aleluia! E vida longa aos habitantes do 1003!

Para Natália, Carol, Dri e reverenda Alexya ❤️🦄

Profissão de fé


Creio em Deus Mãe e Pai e em todo seu poder
Creio e sou apaixonada, mas não só porque criou céus e terra, mas porque nos fez seres santificados, criados à Sua imagem e semelhança.

Creio que esta imagem não se assemelha aos retratos eurocêntricos, tão sem sal e nem ginga, mas à imagem e semelhança de teu interiorque abriga um coração compassivo, amoroso e muito bem humorado (eu sei que eres engraçado, porque te sentia muito perto cada vez que meu pastor Silas gargalhava)

Creio que é um artista criativo que trouxe à existênciaseres vivos repletos de amor e formosura

Acredito que a formiga e o homem tem para ti igual importância,
visto que os fizeste de tal forma ligados, que a extinção de um é a morte lenta do outro.

Creio que não planejaste um mundo Branco, Hetero, Cis, Antropocêntrico e Adultocêntrico.

Acredito que por isso nos pediste para trazer Teu Reino ao nosso mundoPara que pretos, crianças, cães vira-latas, pessoas com deficiência,e ainda os LGBTQIs, pobres, mulheres, putas e gatinhos pudessem se regozijar no amor que nos deste.

Creio no poder do Espírito Santo que nos inunda com amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio

Acredito que assim como Deus faz nascer o seu sol sobre maus e bonse faz cair chuva sobre justos e injustos,faz também seu Santo Espírito se espalhar sobre toda a Terrapara que todo aquele que O busca, possa ter a revelação necessária para encontrá-Lo.

Não creio no inferno como a igreja o ensinaEsse inferno de fogo e perdição que tanto se fala é de Dante Alligueri e não da BíbliaMas creio em fadas. Sim! Tenho certeza que elas existem.

Creio em fadas, unicórnios e em outros seres da natureza
Antes que você me crucifique, vou colocar tudo na conta daqueles versículos que falam que nem tudo está escrito nesse livro (a bíblia) Ok me julguem, já não ligo.


Nessa conta do que o evangelho ainda não nos disse, eu coloco o Reiki, o magnified e o theatahealing, o mindfulness, e outras técnicas de cura e silenciamento do ego. Gosto de astrologia e kim, não para adivinhar o futuro o que seria uma grande bobagem.
mas como ferramenta de reflexão e autoconhecimento

Estudo e amo a Kuan Yin. Sua história e sua mitologia me inspiram a ser uma mulher mais compassiva. Aprendo com seu exemplo assim como de muitos outros santos (separados) como nosso irmão Francisco.

Acredito no feminismo como ferramente necessária para resgate da dignidade e divindade feminina, concedida a Deus para as mulheres.

Acredito que o capitalismo é a antítese do “venha a nós o Vosso Reino” e por isso refuto-o como alternativa viável para as futuras gerações.

Acredito que a proteção ambiental é uma premissa básica para todo cristão, visto que o princípio da mordomia é o que pauta boa parte da razão da nossa existência de acordo com Genesis(sermos mordomos da Criação divina).

Não aceito e jamais aceitarei o racismo, a misoginia, e lgbtfobia ou qualquer outra forma de discriminação como algo que a bíblia pudesse apoiar.

Não acredito que todos os caminhos levam a Deus, mas acredito que muitos caminhos sim, por isso creio que demonizar religiões diferentes da nossa é uma forma de negar ao nosso irmão o direito ao sagrado Buscar-me-eis e me acharei quando me buscardes de todo o coração, é o que Deus diz, portanto daí em diante é uma conversa entre Ele/a e quem o buscaSomos mensageiros e não juízesSejamos apenas servosdo amor, da justiça e das boas causas.

Creio na Sororidade entre as mulheres e na beleza do sagrado feminino

Creio na empatia dos militantes e na comunhão dos ativistas

Anseio pelo dia em que a justiça e a paz se abraçarãoAcredito no amor como única e verdadeira religião deixada por Deus/a , Universo, Alfa e Ômega (todo o resto é teologia barata). Amor incondicional é trabalho profundo e algo doído de se forjar, mas se você quer encontrar Deus, é exatamente ali – no amor incondicional – que Ele estará (junto com as fadas e os unicórnios).

Publicado por Fabi Estrela

Fabi, feminista de fibra, carrega o mundo no coração. Jornalista e bailarina e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. É especialista em Educomunicação, Direitos Humanos e Gênero. Thetahealer e estudiosa do sagrado feminino. Louca por bichos, make up e tattoos. Bem útil e fútil. Tem rodinhas nos pés e asas nas costas, por isso alguns a chamam de fada. Aquariana de riso farto, vive há anos entre Ásia e Europa, onde se dedica a empoderar jovens para mudanças sociais em seus grupos identitários.

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