Tu és o sonho de todos os teus antepassados

Eu nunca tive muito contato com a minha família. Sempre brinco que sou filha de chocadeira porque infelizmente não tenho raízes – ou não as conheço bem.
A família da minha mãe sempre foi a família pobre. O vínculo com a favela, a miséria e a violência decorrente dela.
As poucas memórias que tenho se referem a encontros estranhos, onde parecia que tentávamos juntar a água e o óleo.
Lembro de muito pouco.
De tias vítimas de violência doméstica e de primas que nunca me tratavam de igual pra igual porque achavam que eu era a prima rica (eu era também a prima branca em uma família de negros).
Lembro de uma vez em que uma prima usava uma pomada branca no canto da boca. Uma barata havia roído o cantinho dos seus lábios.
A importância de lavar a boca antes de dormir pra barata não vir te pegar não era uma lenda urbana, afinal.
Lembro de tios problemáticos, envolvidos com “coisas erradas” .
Eles tinham passagem pela Febem, fugiam da escola, e lembro claramente do meu pai e minha mãe fazendo um esforço enorme (no início do casamento, antes de se detestarem) para recuperar o caçula. O Tatu.
Lembro de uma vez que meu avô adotivo deu uma quantia de dinheiro pra ele, para que pudesse fugir do ambiente do crime e recomeçar sua vida.
Esse tio sempre foi o mais frágil, e de algum modo o mais delicado e sensível.
O contato foi ínfimo, mas intenso e as lembranças vívidas.
Como em uma novela de vidas passadas, que abusa do flashback, lembro mais das histórias sobre ele, do que de uma vida com ele.
As histórias eram sempre presentes, porque ele era pura encrenca e as pessoas estavam sempre tentando apagar rastros de incêndio que deixava por onde passava.
Foi um adolescente e jovem infrator. Se envolveu com drogas e se tornou alcoólatra. Fugia do colégio e apesar da minha mãe ter feito de tudo para mantê-lo em uma escola particular que pagou apesar de sua dificuldade financeira (ela mesmo, nunca teve oportunidade de estudar em uma assim), ele abandonou os estudos cedo.
Teve tuberculose mil vezes, inanição e cirrose. Lançou-se de tal forma à margem da sociedade que chegou a viver em situação de rua.
Constituiu família mas foi um péssimo pai e marido.
Seus três primeiros filhos foram salvos pela fé em Jesus Cristo. Sim, apesar do péssimo testemunho da maioria das igrejas evangélicas (com destaque para as neopentecostais e sua falaciosa teologia da prosperidade), ainda existem igrejas incríveis que propagam o verdadeiro evangelho de amor e cura.
Meu tio chegou a frequentar um tempo com os filhos, mas não estava preparado para enfrentar seus demônios e saiu.
Os filhos escaparam do ciclo vicioso de miséria, ignorância e alcoolismo. Grata eu sou!
Meu tio, no entanto, constituiu outra família e essa não escapou. (Ainda, né? Enquanto há vida, há esperança, não é isso que diz o dito popular?)
A esposa também é alcoólatra e a filha, mãe solo de duas crianças, já foi presa (um dia depois de completar dezoito anos).
Talvez o leitor pense: ufa! Que bom! A Fabi teve um grande livramento na vida.
Sim e não .
Sim porque sou grata, extremamente grata por ter experienciado a pobreza, mas nunca a miséria. Por ter um lar disfuncional, mas ainda assim um lar.
Não, porque não há como se desvincular do que somos.
Nossa história, sangue, ciclos, espiritualidade e sementes.
Não há como negar ou ignorar de onde viemos. Não importa quantas milhas você viaje, ou se você tem um lar “perfeito” e uma condição de vida boa.
Há coisas que são marcadas a fogo em nossa alma. Tatuadas com dor em nossa pele.
Não é ruim. É só o que é.
Não dá pra fugir de nossa ancestralidade, nossas raízes e nossa essência (mesmo quando pensamos que não temos nenhuma e nos autodenominamos “de chocadeira”).
Minha mãe tampouco conseguiu fugir da sua. Herdou dores e feridas e enfrentou algozes diversos e sobreviveu.
Literalmente.
Hoje ela me perguntou: Por que só eu escapei?
E convenhamos, escapou raspando…
Lembro que ela mencionou em um livro que estava a caminho de Nova York para um evento incrível, onde grandes nomes do mundo referentes ao feminismo e ao racismo estariam.
Em um semáforo no meio do trajeto, um vendedor de limões se aproximou da janela. Ela virou-se para dizer que não queria nada, então seus olhos se cruzaram com os dele. Seu irmão. Meu tio. Ali debaixo de um sol a pino, vendendo limão no farol. Minha mãe a essa altura, jornalista, ativista e mobilizadora internacional reconhecida. Ele quase um “indigente”. À margem de tudo, um preto pobre, vulnerável, doente, “viciado”. O tipo de ser humano que personifica nitidamente o objeto de resgate da nossa luta diária.
Confuso não? Alcançamos tantas vidas, resgatamos e empoderamos tantos outros pretos, pobres e vulneráveis, mas não conseguimos salvar nosso sangue. Como é difícil vencer a miséria e suas mazelas, meu Deus!
Tatu era fruto de um meio violento, tanto pela pobreza, quanto pela falta de perspectivas.
Tatu nasceu Eduardo, minha mães (a biológica e a de criação) o chamavam de pequenino. Talvez fosse o desejo inconsciente de que ele nunca crescesse. O futuro dele parecia já estar morbidamente traçado, e a infância poderia ser então um ambiente seguro antes das trangressões e do vício.
Na verdade não.
Minha mãe me contou hoje que quando ele nasceu, minha avó (que morreu antes d’eu nascer) estava imersa no mais profundo alcoolismo. Era descuidada e por vezes violenta. Eduardo cresceu se enfurnando na terra, se refugiando, buscando esquecer a carestia e o abandono. De tanto cavocar o chão e se enfurnar no solo, recebeu por alcunha, Tatu.
Minha mãe também era criança, mas ainda assim, praticamente tornou-se a mãe dele.
Ela lutou por ele. Lutou muito, mas a história deles era como um desses filmes que você assiste desejando um final feliz, mas que no fundo você sabe que não tem como acabar bem.
E não acabou mesmo…
Hoje meu tio Tatu, preto, pobre e de periferia perdeu a luta contra a morte.
Faleceu com menos de sessenta anos, provavelmente vítima do COVID 19.
Morreu em casa, mas mesmo assim não fizerem autópsia para confirmar a causa da morte. A esposa teve COVID, ainda assim,
o médico disse que devia ser por causa de situações agravadas da saúde em decorrência da bebida, e escreveu no atestado de óbito que ele morreu de causas naturais.
Ele acha que foi isso, mas não fez questão de garantir a informação. Pudera! Quem se importa ? Mais um preto, mais um pobre…
Minha mãe suspira lembrando de todo esforço despendido para resgatar cada membro dessa família e se dá conta de que realmente foi por pouco. Sim ela escapou… então de novo se pergunta: Por que eu ?
E eu então respondo : Por que tu és o sonho de todos os teus antepassados.

Apenas considerando um texto que mexeu muito comigo:

Ovelhas Negras, por Bert Hellinger…

“As chamadas “ovelhas negras” da família são, na verdade, caçadores natos de caminhos de libertação para a árvore genealógica.

Os membros de uma árvore que não se adaptam às normas ou tradições do sistema familiar, aqueles que desde pequenos procuravam constantemente revolucionar as crenças, indo na contramão dos caminhos marcados pelas tradições familiares, aqueles criticados, julgados e mesmo rejeitados, esses, geralmente são os chamados a libertar a árvore de histórias repetitivas que frustram gerações inteiras.

As “ovelhas negras”, as que não se adaptam, as que gritam rebeldia, cumprem um papel básico dentro de cada sistema familiar, elas reparam, apanham e criam o novo e desabrocham ramos na árvore genealógica.
Graças a estes membros, as nossas árvores renovam as suas raízes.

Sua rebeldia é terra fértil, sua loucura é água que nutre, sua teimosia é novo ar, sua paixão é fogo que volta a acender o coração dos ancestrais.

Incontáveis desejos reprimidos, sonhos não realizados, talentos frustrados de nossos ancestrais se manifestam na rebeldia dessas ovelhas negras procurando realizar-se.

A árvore genealógica, por inércia quererá continuar a manter o curso castrador e tóxico do seu tronco, o que faz a tarefa das nossas ovelhas um trabalho difícil e conflituoso.

No entanto, quem traria novas flores para a nossa árvore se não fosse por elas?

Quem criaria novos ramos?

Sem elas, os sonhos não realizados daqueles que sustentam a árvore gerações atrás, morreriam enterrados sob as suas próprias raízes.

Que ninguém te faça duvidar, cuida da tua “raridade” como a flor mais preciosa da tua árvore.

Tu és o sonho de todos os teus antepassados.”

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